postado por Brunno Vieira
5:29 PM
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Quarta-feira, Maio 21, 2008
UM SACRIFÍCIO PELA CIDADANIA
Panfletos de empréstimos, de casas de prostituição, de consultórios odontológicos, de “compro ouro”, etc., emporcalham as calçadas e os meios-fios dia a dia. Em período eleitoral – e teremos um no próximo semestre - a cidade parece um gigantesco toalete doméstico para poodles: um tapete de celulose se estende por todas as direções. Por fazer parte de um grupo que almeja a cidade limpa, sempre agradeço aos panfleteiros e sigo meu trajeto. Sem panfleto algum.
Por vezes tenho acirradas discussões com “almas caridosas” que acreditam que, ao pegar estes panfletos, estão ajudando os trabalhadores informais das ruas. Consigo ver uma lógica nisso. Só que a maioria deste grupo caridoso tem a bondade proporcional à falta de educação e a falta de respeito ao próximo e a si mesmo. E isso explica o emporcalhamento.
Os malefícios causados à cidade não justificam os supostos “benefícios” angariados por estes trabalhadores informais, que ganham precariamente por um serviço que poderia ser feito por um balcão, um estande, uma prateleira.
Mas este não é um texto sobre panfletos e informalidade. Este texto é sobre o Josué – nome fictício, simplesmente porque não tive coragem de perguntar.
Josué é um panfleteiro que trabalha na Praça Saens Peña. Eu o vejo todos os dias, e o fato dele trabalhar em cima de um skate - devido a suas pernas e braços atrofiados - nunca me comoveu a ponto de pegar um panfleto.
É um déjà vu toda manhã. Passo por Josué e ele está sempre bem-humorado, risonho, ouvindo músicas com um fone imenso, desejando “bom-dia” em alto e bom som para todos. Às vezes ele solta um cômico “Olha eu aqui embaixo, hein!” (sic), o que faz algumas pessoas com semblantes sisudos aliviarem a tensão rumo ao trabalho. Mas hoje de manhã foi diferente.
Pela primeira vez, em meses, ele não estava no lugar habitual. Olhei ao redor e o vi se locomovendo. Com muita dificuldade, Josué usava uma das pernas atrofiadas como alavanca para impulsionar o skate. Não sei porque cargas d’água parei e fiquei observando. Ele percorreu uns 10 metros, com dificuldade. Não devia estar sentindo dores, acredito, mas eu sentia por ele. Ele chegou próximo a um poste, esticou seu corpo ao máximo para cima, e jogou uma garrafa de plástico vazia no lixo. Depois voltou, com a mesma dificuldade da ida.
Chamem-me de piegas, mas aquilo me emocionou. Um puta sacrifício daqueles pela cidadania. Ter uma limitação física não o impediu de trabalhar, mesmo que informalmente, não o impediu de ser bem-humorado, de tratar bem as pessoas ao redor e, principalmente, de ser um cidadão. Josué, provavelmente não escolarizado, demonstrou ser escolado, ter sensibilidade e um senso de cidadania raro, ao menos na cidade do Rio de Janeiro.
Amanhã, pela primeira vez, pegarei um panfleto das mãos do Josué. Por admiração, pelo exemplo... E prometo voltar com o nome verdadeiro dele.